Há uma fronteira que nenhuma campanha deveria atravessar: transformar a religião de milhões de brasileiros em instrumento de medo contra o adversário.
A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ultrapassou essa fronteira quando começou a circular a falsa afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A Justiça Eleitoral considerou “notoriamente inverídico” o núcleo dessa narrativa, e a disputa sobre a retirada das publicações acabou chegando também ao Supremo Tribunal Federal.
O problema, porém, não terminou quando a falsidade da informação foi apontada.
Em entrevista à Band, Lula falou sobre a suposta ameaça a Nossa Senhora Aparecida e relacionou o episódio à agressão praticada contra uma imagem da santa em 1995 por um então bispo da Igreja Universal. Quando a jornalista Adriana Araújo observou que a história envolvendo Flávio Bolsonaro era fake news, Lula respondeu: “Eu não sei se foi fake news”.
A resposta é politicamente relevante porque o assunto já havia ultrapassado as redes sociais e chegado à Justiça Eleitoral.
No dia seguinte, em campanha em Belém, Lula voltou ao tema. Declarou que, enquanto fosse presidente da República, ninguém iria “avacalhar com Nossa Senhora Aparecida” e defendeu respeito às diferentes religiões.
Defender o respeito à fé católica é absolutamente legítimo.
O problema aparece quando essa defesa ocorre dentro de uma controvérsia alimentada por uma premissa falsa e capaz de criar, entre milhões de pessoas, a impressão de que existe uma ameaça evangélica contra símbolos católicos.
Essa associação merece especial cuidado.
Um episódio ocorrido em 1995 não pode ser utilizado como retrato de toda a comunidade evangélica brasileira. A atitude de um religioso, três décadas atrás, não transforma milhões de pentecostais, batistas, presbiterianos, assembleianos ou membros de tantas outras denominações em adversários dos católicos.
Da mesma maneira, nenhuma declaração isolada de um pastor deveria servir para atribuir intenções políticas coletivas aos evangélicos.
O episódio torna-se ainda mais sensível porque a religião não apareceu apenas incidentalmente na estratégia eleitoral.
A campanha de Lula produziu um documento chamado “Guia da Conversa”, destinado a orientar militantes na abordagem de eleitores indecisos. O material inclui a religião entre os assuntos de convencimento e orienta militantes a afirmar que Lula é católico e guiado por valores cristãos. Segundo a reportagem que revelou o documento, ele circulou também em grupos de WhatsApp voltados ao eleitorado evangélico.
Isso não significa que a cartilha tenha criado ou reproduzido a história falsa sobre Nossa Senhora Aparecida. O conteúdo divulgado da publicação não demonstra isso. Essa distinção precisa ser preservada. Também não há, nas informações públicas disponíveis até agora, demonstração suficiente para afirmar que a direção nacional do PT tenha sido responsável pela criação original da fake news.
Acusar sem prova seria apenas substituir uma desinformação por outra.
Mas existe uma questão diferente — e legítima — a ser discutida: o aproveitamento político de uma controvérsia religiosa depois que sua premissa factual já havia sido seriamente contestada e tratada pela Justiça Eleitoral como falsa.
Nesse ponto, o episódio deveria preocupar qualquer brasileiro, independentemente de candidato.
Católicos e evangélicos podem discordar profundamente sobre Maria, santos, imagens, sacramentos e inúmeros pontos teológicos.
Essas divergências pertencem ao campo da fé.
Transformá-las em ferramenta de campanha é outra coisa.
A partir do momento em que o eleitor católico começa a receber a mensagem de que determinada candidatura evangélica representaria ameaça à sua padroeira, cria-se um terreno perigoso para uma divisão que extrapola as urnas.
E quando se recupera um episódio ofensivo cometido por um religioso evangélico há mais de 30 anos dentro desse mesmo contexto, o risco é ainda maior: a exceção individual pode passar a funcionar como símbolo de toda uma comunidade.
O Brasil não precisa disso. Não precisamos inventar uma guerra entre católicos e evangélicos porque existe uma eleição presidencial.
A disputa política termina. A convivência entre essas comunidades continuará.
Elas continuarão dividindo bairros, locais de trabalho, escolas e, muitas vezes, a mesma mesa de almoço dentro de uma família.
A Justiça também entrou nessa controvérsia de maneira extraordinária. André Mendonça determinou a remoção das publicações consideradas falsas; Flávio Dino posteriormente afastou aquela ordem em nome das liberdades de expressão e religiosa; e Luiz Fux suspendeu os efeitos da decisão de Dino, fazendo voltar a valer as determinações da Justiça Eleitoral enquanto o caso segue para apreciação colegiada.
Isso demonstra que a questão ultrapassou há muito uma simples publicação de rede social.
Mas nenhuma decisão judicial elimina a responsabilidade política.
Quem disputa ou ocupa a Presidência fala para milhões de brasileiros. Uma frase presidencial não possui o mesmo alcance de uma mensagem enviada por um cidadão comum em um grupo de WhatsApp. Essa diferença exige responsabilidade proporcional.
E essa responsabilidade precisa valer igualmente para todos: Lula, Flávio Bolsonaro, PT, PL, militantes, influenciadores, lideranças religiosas e qualquer pessoa que participe do debate público.
Há problemas suficientes para serem discutidos nesta eleição sem que seja necessário colocar Nossa Senhora Aparecida de um lado e os evangélicos do outro.
O Brasil pode discutir governo, economia, segurança, educação, corrupção, políticas sociais e todas as demais questões que determinarão seu futuro.
Não precisa transformar altar e púlpito em trincheiras eleitorais.
Fé não deveria ser arma de campanha.
E nenhuma vitória política vale o preço de estimular brasileiros a enxergarem a religião de seus vizinhos como ameaça à sua própria fé.
Editorial
Com informações de: CNN Brasil, Estadão Conteúdo, Supremo Tribunal Federal e Tribunal Superior Eleitoral.
