O sistema de transporte público urbano do país enfrenta sua pior crise estrutural em décadas. Ao concentrar os custos das frotas e das gratuidades sociais exclusivamente na tarifa paga pelo passageiro pagante, o modelo asfixiou financeiramente os usuários de baixa renda e provocou um esvaziamento contínuo das linhas de ônibus. Dados apresentados pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) mostram que o total de passageiros mensais despencou de cerca de 400 milhões em 2014 para 211,6 milhões ao término de 2025 uma contração acumulada de 45,9% nas catracas giradas desde 2013.

Essa evasão alimenta uma migração acelerada para o transporte individual. Levantamentos do Plano CNT de Transporte e Logística apontam que, entre 2017 e 2024, o uso de corridas por aplicativo saltou de 1% para 11,1%, a frota de motocicletas nos deslocamentos diários dobrou de 5,1% para 10,9% e os carros particulares passaram a representar 26%. Entre os principais motivos citados pelos passageiros para abandonar o transporte de massa estão a busca por conforto (29%), flexibilidade horária (21%) e redução no tempo perdido no trânsito (20%), além de questões de segurança pessoal e proteção contra assédios.

Gargalo de infraestrutura e metas globais A deficiência na malha viária urbana amplifica os congestionamentos nas cidades, onde vivem 87% dos brasileiros. Segundo a CNT, em 35 cidades analisadas, 46,4% não possuem nenhum tipo de faixa segregada para transporte coletivo. Apenas 26,4% da frota trafega em corredores próprios, 23,1% usam faixas exclusivas e somente 11,2% contam com canaletas de BRT. A consequência direta é o travamento do fluxo viário, fazendo com que moradores de capitais como Brasília percam, em média, 58 horas anuais parados em engarrafamentos.

A superação do quadro dialoga com o cumprimento do Objetivo 11.2 das Nações Unidas (ONU), que estabelece para 2030 o acesso universal a transportes seguros, sustentáveis e acessíveis. Para atingir essa meta, a diretora-executiva da CNT, Fernanda Rezende, defende um plano de R$ 476 bilhões em obras públicas, sendo R$ 86 bilhões para duplicar vias exclusivas de ônibus (com previsão de 1.556 km de novos BRTs) e R$ 390 bilhões para duplicar a malha metroferroviária sobre trilhos, que atualmente possui pouco mais de mil quilômetros em todo o território nacional.

Revisão do modelo de financiamento No campo regulatório, especialistas convergem quanto ao esgotamento do padrão tarifário tradicional. A NTU articula no Congresso a aprovação do “Programa Transporte para Todos”, propondo o Vale-Transporte Social via Bolsa Família e a transferência dos custos de gratuidades para as pastas federais de Saúde, Educação e Assistência Social.

Para o pesquisador Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a sustentação do transporte exclusivamente pela catraca tornou-se insustentável. Segundo o economista, o modelo penaliza o trabalhador pobre e empurra a população para as motocicletas e carros de aplicativo modais que respondem por mais de 30 mil fatalidades por ano no trânsito e oneram o sistema de saúde, sem cobrir os custos externos gerados à sociedade. A solução, aponta o pesquisador, requer o rateio tripartite do custeio entre os três níveis de governo e a ampliação da contrapartida dos empregadores.

Fonte: Pinga Fogo